História da Martíria

Vamos supor que a Martíria foi criada em um ambiente religioso muito rígido. Ela sempre aprendeu que a pessoa religiosa deve ser humilde, bem comportada e generosa. Sua família é sempre generosa, seus pais são humildes, seus irmãos são bem comportados. Todos na igreja são generosos e humildes e se ajudam mutuamente. 

Desde pequena, a Martiria se sente muito feliz em fazer parte da igreja e faz tudo como eles fazem. Para manter a sua humildade, a Martíria vai crescer e escolher uma profissão simples, que não ganhe muito dinheiro, pois ela sempre aprendeu que até um camelo pode passar pelo buraco de um alfinete, mas um rico não pode entrar no reino dos céus. E todos na igreja são muito simples, não existe ostentação. O sacerdote da igreja condena a ostentação em muitos dos seus discursos.

Mesmo ganhando pouco, a Martíria ainda ajuda os pobres e gasta parte do seu salário em fazer caridade. Ela faz parte de um grupo da igreja que recolhe produtos para doar aos pobres. Ela também participa como cozinheira voluntária para fazer sopa para os pobres. Porque ela acha que Deus vai recompensar os bons e punir os maus. 

Como ela se considera uma boa pessoa, porque ela sempre ajuda os outros, ela sabe que Deus vai estar do lado dela. Então, a Martíria se casa com um homem também simples e humilde, porque foi assim que ela aprendeu que deve ser. E eles têm filhos e levam uma vida difícil e complicada, sempre na escassez. 

A Martíria não consegue sequer pensar que se ela escolhesse uma profissão mais rentável, ela ganharia mais e até poderia ajudar mais aos pobres. E que talvez ela se sentisse mais feliz com alguma outra profissão, porque o critério de escolha que ela usou para a profissão foi o da humildade e não o dom que ela tem e que poderia render um ótimo salário para ela. Ela até foi cortejada por um homem lindo e rico, mas como, na cabeça dela, a riqueza era ruim, ela não deu nem chance para o homem, já julgando que ele era mau por ser rico. 

Nem passa pela cabeça da Martíria que se ela tivesse mais dinheiro, mais bens, melhores condições de vida, ela teria muito mais condições de ajudar as pessoas, de fazer caridade. Mas a Martíria vai morrer fazendo as mesmas coisas, se comportando da mesma forma, pois sua crença é que Deus é contra a riqueza, que é melhor ser feliz  na pobreza do que ser triste na riqueza. 

No entanto, ela nunca conviveu com os ricos para saber se é isso mesmo, ela nunca se deu essa oportunidade. Porque ela aceitou o pensamento da sua religião sem nunca questionar, mesmo que o resultado não fosse tão bom para ela. Ela nem mesmo chegou a pensar, a refletir sobre aquilo que ela vinha fazendo toda a sua vida. Simplesmente absorveu aquele modo de pensar do seu grupo religioso e foi vivendo como se aquele fosse o seu pensamento, sem questionar.

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