Um outro tipo de crença pode vir dos nossos sentimentos. Ou seja, ela não vem por observação do comportamento, nem pela aceitação do modo de pensar e sim pelo sentir. O sentir pode ter a ver com sensação, com emoção e com sentimento.
As sensações
A sensação seria mais relacionada aos 5 sentidos propriamente ditos, a uma percepção do mundo por meio dos sentidos, então é de fora para dentro.
Um bom exemplo de crença que surge a partir das sensações é aquela que vem do seu instinto, que é uma espécie de sabedoria do corpo de que algo pode te fazer bem ou mal. Por exemplo, você sente o cheiro de uma comida e acha que não está boa para você comer. Aquele cheiro te faz acreditar que aquilo vai te fazer mal. É algo simples, mas que pode se tornar uma crença. Às vezes, você pode estar certo e aquilo realmente te fazer mal.

Figura 6 – As crenças provenientes das sensações.
Mas lembra da história da manga com leite? Virou uma superstição por muito tempo! Não sei de onde isso surgiu, mas é bem provável que alguém passou mal por algum outro motivo e associou isso com uma mistura de manga com leite que a pessoa tomou ou comeu naquele dia. Aquilo foi se alastrando de geração em geração e se tornou uma proibição! Ninguém pode tomar manga com leite que faz mal. Mas eu já cansei de tomar manga com leite e é uma delícia e faz muito bem! Nunca passei mal com esse suco! Várias superstições são crenças de sentimento. Elas surgem por uma razão, são distorcidas e se tornam uma superstição sem sentido, uma crença limitante coletiva.
As emoções
A emoção é algo que acontece internamente, é uma espécie de sensação interna e impulsiona para a ação, é algo que precisa ser expresso, ou seja, é de dentro para fora.

Figura 7 – As crenças provenientes das emoções.
Mas se acontecer algo ruim e você não conseguir digerir a emoção, não conseguir lidar com o que resultou daquele fato, você pode gerar traumas, que são um tipo de crença limitante. O trauma é uma reação não controlada que temos a um fato ou acontecimento extremo.
Segundo a Associação Americana de Psicologia, o trauma é uma resposta emocional a um evento difícil, como um acidente, um estupro ou desastre natural, que deixam a pessoa em choque (APA 2013/2023). A longo prazo, a pessoa que sofre trauma pode ter reações imprevisíveis, tais como flashbacks, relacionamentos tensos e sintomas físicos como dores de cabeça ou náuseas.
O trauma pode causar um dano tão grande à pessoa que ela passa a ter reações físicas, emocionais e mentais a longo prazo, como se o evento estivesse sempre se repetindo, e impedindo que a pessoa tenha uma vida saudável e plena em aspectos que tenham relação com aquele evento. No entanto, nem todas as pessoas que sofrem traumas desenvolvem os mesmos problemas, ou seja, nem sempre a pessoa tem respostas negativas a aquele fato terrível.
Mas as pessoas que reagem mal a um acontecimento e sofrem um trauma podem criar mecanismos de defesa que se tornam, de certa forma, crenças limitantes. Por exemplo, uma pessoa sofre um acidente de avião e sobrevive. E dali em diante, ela passa a encarar o avião como um perigo iminente e nunca mais ela vai voar na vida. No entanto, foi um acidente, ou seja, um acontecimento repentino, fortuito e desagradável, mas que não tem relação direta com o avião. Podia ter sido com um carro, um caminhão ou mesmo a pé.
Mesmo assim, a pessoa cisma com avião dali em diante. Porque as reações que ela teve ao fato foram tão fortes, que é como se as sinapses dela se colassem de uma vez no momento que ela reagiu ao acidente. E aquelas sinapses se colaram tão fortemente que é difícil descolar. Seria bom se a gente aprendesse assim as coisas boas, não é? Que as nossas sinapses se colassem imediatamente e a gente aprendesse a autoestima, a gentileza, o perdão, a fraternidade… mas as coisas boas nós demoramos um pouquinho para aprender, as sinapses vão se colando bem devagar, não é?
Mas no caso do trauma, sempre que a pessoa lembra do acidente ou faz qualquer associação com o fato, ela tem a mesma reação imediata e sem controle. Parece que se torna uma reação do sistema nervoso autônomo, uma reação automática que não somos capazes de controlar. Nesse caso, será necessário que a pessoa faça um tratamento, uma espécie de dessensibilização, de modo que ela desassocie aquele acontecimento trágico da reação que ela teve ao acontecimento.
Segundo o especialista em trauma, Peter A. Levine, o trauma ocorre quando a pessoa não consegue liberar e processar o evento estressante no momento em que ocorre. Mas, segundo esse pesquisador, se a pessoa descarregar a energia gerada pelo trauma, na forma de choro, grito, tremor ou qualquer reação que externalize o que ela está sentido, ela pode evitar uma resposta traumática (PIZOL 2018).
A Sra. Penney Peirce é uma médium clarividente que, desde os anos 1990, auxilia as pessoas a desenvolver a intuição e as capacidades extrassensoriais e ela aborda o trauma sob essa perspectiva, já que ela consegue ver a aura das pessoas. Ela afirma que as lembranças relacionadas a traumas projetam uma sombra no corpo, que podem causar dores crônicas, doenças e até mesmo lesões no local que corresponda à ferida original. Por exemplo, se uma pessoa foi espancada com frequência, seja numa vida passada ou na infância, essas lembranças ficam impressas no corpo energético da pessoa, o que pode gerar dores e até mesmo machucados de origem desconhecida exatamente na área em que os sentimentos negativos causados pelo trauma foram descarregados (Peirce, 2011).
Quando a pessoa se cura e libera as crenças e emoções relativas ao trauma, os pontos escuros do seu campo energético são dissolvidos, permitindo que a luz da alma dessa pessoa flua com facilidade e leveza. Isso aumenta a frequência vibracional da pessoa, ela se cura dos problemas de saúde causados pelo trauma, se torna mais sábia e mais amorosa e sua vida melhora.
Por isso é tão importante o autoconhecimento e a expansão da consciência, para que a pessoa seja capaz de lidar com os seus traumas, que podem interferir profundamente na vida da pessoa, chegando até mesmo a paralisar completamente suas capacidades.
Os Sentimentos
O sentimento é algo mais elaborado e complexo, que envolve a articulação das emoções e dos pensamentos. Se olharmos a etimologia da palavra “feeling” em inglês, que quer dizer “sentimento”, significa “emoção consciente”, ou seja, é quando a pessoa consegue gerenciar suas emoções, pensar a respeito e escolher o que ela quer sentir. São esses os três níveis do sentir: a sensação, a emoção e o sentimento.

Figura 8 – As crenças provenientes dos sentimentos.
O sentimento passa pela sensação, pela emoção e pelo pensamento. As sensações trazem como resultado alguma emoção que faz você se mover, seja por mal ou por bem. Você pode estar apaixonado por alguém e isso parece uma boa sensação. Ou você pode estar com raiva de alguém e isso é péssimo, mas pode fazer você se mover ou ficar paralisado. Mas se você consegue dar mais um passo e refletir sobre aquela emoção, aquilo se torna consciente e você pode raciocinar a respeito e compreender porque aquilo é correto e bom ou incorreto e mal e decidir agir de forma lúcida. Assim, a sensação se tornou emoção, que se tornou pensamento, que se tornou sentimento.
Por exemplo, tem a crença que nasce do sentimento que você tem por outra pessoa. Essa é bem comum e já começa com os nossos pais. Como isso funciona?
Você observa a sua mãe e como ela se comporta com você. Ela é carinhosa, cuidadosa, ajuda você a fazer a lição, lava e passa as suas roupas, tem sempre uma palavra amiga, ajuda você nas crises. Então, você desenvolve um sentimento de gratidão por ela, de apego, de amorosidade. E esses sentimentos que sua mãe causa em você, com as atitudes dela, fazem você acreditar que sua mãe está certa em agir assim. E você absorve isso de tal maneira que passa a se comportar como ela, e acredita que deve se aproximar de pessoas como ela, pois ela te provoca sentimentos felizes.
Já o seu pai é muito rígido, exigente, irritante, ele grita com você e faz você chorar. E ele causa em você sentimentos muito ruins, emoções perturbadoras, que fazem com que você fique traumatizado, depressivo, melindrado, triste. E embora você ame e respeite seu pai, essas emoções negativas que você associa ao seu pai fazem você acreditar que o modo de ser dele é ruim e que você não deve se comportar como ele. Mais que isso, fazem você acreditar que deve se afastar de pessoas como ele, pois essas pessoas farão você sofrer.
Vamos ilustrar essa situação com uma história que recebi outro dia:
Era um filho que não gostava de viver na casa do pai, pela constante “irritação” da sua parte. O pai dizia:
– “Se não vai usá-lo, desliga o ventilador”
– “A TV está ligada na sala onde não está ninguém.. Desligue!”
– “Feche a porta”
– “Não gaste tanto a água”
O filho não gostava que o pai o incomodasse com essas pequenas coisas.
Ele teve que tolerar, até certo dia em que recebeu um convite para uma entrevista de emprego.
”Assim que conseguir o emprego, vou sair desta cidade. Não vou ouvir mais uma reclamação do meu pai.” Foi o que ele pensou…
Quando saiu para a entrevista, o pai aconselhou:
“Responda às perguntas que lhe forem feitas sem hesitação. Mesmo que não saiba a resposta, mencione com confiança.”
O filho chegou no local da entrevista e percebeu que não havia seguranças na porta. Embora a porta estivesse aberta para fora, provavelmente era um incômodo para as pessoas que passavam ou entravam por ali. Ele fechou a porta e entrou no escritório.
Em ambos os lados do caminho, ele pôde ver lindas flores, mas o jardineiro deixara a chave aberta e a água na mangueira não parava de correr. A água transbordava na rua…
Ele levantou a mangueira, trocou de lugar e colocou perto de outras plantas que precisavam dela. Não havia ninguém na área da recepção, no entanto, havia um anúncio onde dizia que a entrevista seria no primeiro andar.
Subiu lentamente as escadas.
A luz ainda estava acesa às 10 da manhã, provavelmente desde a noite anterior…
Ele lembrou-se do aviso do pai: “Por que sai da sala sem apagar a luz?”
Parecia que eu podia ouvi-lo agora. Mesmo se sentindo incomodado com este pensamento, procurou o interruptor e apagou a luz.
Em cima, num grande salão, viu mais pessoas sentadas esperando por sua vez. Ele olhou para o número de pessoas e perguntou se eu tinha alguma hipótese de conseguir o emprego.
Entrou no corredor um pouco nervoso e pisou no tapete de “Bem-vindo”, colocado perto da porta, mas percebeu estar de cabeça para baixo. Endireitou então o mesmo tapete.
Hábitos são difíceis de esquecer.
Ele viu que nas fileiras na frente havia muitas pessoas amontoadas esperando, enquanto as filas de trás estavam vazias e vários ventiladores estavam apontados para esses bancos vazios.
Ele ouviu a voz do pai de novo: “Por que os ventiladores estão conectados na área onde ninguém está?”
Ele desligou os ventiladores que não eram necessários e sentou em uma das cadeiras vazias. Viu muitos homens entrarem na sala de entrevista e saírem imediatamente por outra porta.
Então, não havia como alguém adivinhar o que estava sendo perguntado na entrevista. Quando chegou a vez dele, ele parou diante do entrevistador com alguma preocupação.
O responsável pegou os seus papéis e sem olhar, perguntou:
– Quando você pode começar a trabalhar?
Ele pensou: “Será uma pergunta capciosa ou é sério que estão me oferecendo o trabalho?”
Ao que o chefe disse:
– Não fazemos perguntas a ninguém aqui, pois acreditamos, que através delas, não poderemos avaliar as habilidades de alguém. Portanto, o nosso teste é avaliar as atitudes da pessoa. Fizemos alguns testes baseados no comportamento dos candidatos e observamos todos através de câmeras.
Nenhum dos que vieram aqui fez nada para consertar a porta, a mangueira, o tapete de “Boas-vindas”, desligar os ventiladores ou as luzes que estavam ligadas inutilmente.
Você foi o único que fez isso, por isso decidimos selecionar você para o trabalho – disse o chefe.
Ele sempre se incomodava com a disciplina do seu pai, mas nesse momento ele percebeu que, graças a isso, ele conseguiu o seu primeiro emprego.
E assim nasceram duas crenças de sentimentos. E as duas podem ser limitantes.
Mesmo o caso dessa mãe amorosa pode gerar uma crença limitante, pois talvez você não tenha olhado para ela de um modo objetivo, apenas subjetivo, você olhou apenas para o que ela te fez sentir naquele momento. E o seu pai, da mesma forma, você não olhou para ele com olhar objetivo, mas subjetivo, com base no sofrimento que ele te causou naquele momento.
Mas essa mãe pode ter sido muito condescendente e tornou você um pouco relaxado demais, até mesmo preguiçoso. E esse pai pode ter sido uma pessoa forte, com muita disciplina e garra, que poderia ter te ajudado a ser uma pessoa mais responsável.
Mas você era uma criança e não conseguia enxergar isso nos seus pais. Você enxergou apenas pelo ponto de vista dos seus sentimentos, das emoções que eles causaram em você naquele momento, sem olhar para eles como eles realmente são, despidos das suas interpretações subjetivas.
As crenças que vêm dos sentimentos são as candidatas mais propícias a se tornarem crenças limitantes, porque o sentimento em si já é algo muito bem elaborado dentro de nós.
Nós nem mesmo cogitamos questionar aqueles por quem temos sentimentos fortes. E não temos esses sentimentos por pessoas passageiras em nossa vida e sim por pessoas que permanecem. Ou seja, são relacionamentos próximos e duradouros que nos levam ao sentimento. São os pais, irmãos, amigos de toda vida, marido, esposa, filhos.
Todas essas relações nos influenciam com muita força e geram em nós crenças ou padrões muito difíceis de serem quebrados. É quase uma síndrome de Estocolmo que vivemos com pessoas próximas, por muito tempo.
E por isso é tão difícil nos libertarmos de crenças dos sentimentos. Além disso, muitas vezes, continuamos a conviver com essas pessoas e, ao tentarmos nos libertar das crenças que elas provocaram em nós, com certeza, teremos problemas de convivência, dificuldades e conflitos. Para nos libertarmos, vamos precisar de um bom jogo de cintura para identificar, transformar e eliminar as nossas crenças vindas dos sentimentos. Vamos aprender como fazer isso nos próximos capítulos.
Assim, as crenças do sentimento podem surgir:
- das sensações, que vêm dos 5 sentidos;
- das emoções, que vêm de dentro de nós, em reação ao que recebemos do meio;
- dos sentimentos, que são as sensações e emoções bem administradas.

